Designer largou o emprego para vender brigadeiro de bicicleta com a prima e o amigo de infância — de camelô expulso da rua a uma confeitaria de R$1.25M
Matheus Duarte era designer gráfico num Procon do Rio. Em 2017 ele pediu as contas e, com a prima Jessica e a amiga de infância Thayanini, passou a fazer brigadeiro — o doce nacional do Brasil — no apartamento dos pais, primeiro tentando vender numa bicicleta adaptada (não deu certo) e depois como camelô. Em algumas semanas faturava menos de R$150; foi expulso de lojas e via conhecidos atravessarem a rua para não topar com ele. Na pandemia, o Instagram transformou o carrinho de rua numa marca com clientes famosos; em 2021 abriram uma loja, a Casa Afagá, e em 2024 o faturamento passou de R$1.25M (~$220K) — sem nenhuma captação ou empréstimo, um carrinho de três pessoas virou um time de 18.
Processo
Matheus Duarte era designer gráfico num Procon (órgão de defesa do consumidor) no Rio. Hoje a marca de doces que ele fundou com a família e os amigos, a Afagá, fatura R$1.25 milhão (~$220K) por ano, com famosos na fila. Mas o negócio começou com uma bicicleta que não vendia e uma temporada de rua em que as pessoas atravessavam a calçada para fugir dele.
Etapa 1 — O começo (2017): um designer pede as contas, não consegue vender doce de bicicleta e vai pra rua
Em 2017, Matheus largou o emprego de designer gráfico no Procon e, junto com a prima Jessica Veras e o amigo de infância Thayanini Magalhães, decidiu fazer brigadeiro — o doce nacional do Brasil, uma bolinha de chocolate feita de leite condensado e cacau. No início ele tentou vender numa bicicleta adaptada — não funcionou.
Então os três viraram camelôs (vendedores de rua): faziam os doces no apartamento dos pais do Matheus, na Penha, e empurravam o carrinho até bairros nobres como Ipanema (terças e quintas, ali pela Rua Visconde de Pirajá).
O começo foi brutal: em algumas semanas entrava menos de R$150. Mais difícil que a falta de dinheiro era a questão da dignidade: "Fui expulso de lojas e via conhecidos atravessarem pra outra calçada só pra não esbarrar em mim", é assim que ele resume aqueles anos de rua. A maioria das pessoas desistiria nessa vergonha. Esses três não desistiram.
Etapa 2 — A virada da pandemia: o Instagram transforma um carrinho de rua numa marca com clientes famosos
A virada veio com a pandemia. Naquele período, o Instagram deles (@afagabr) cresceu rápido. O produto e a reputação que eles ralaram pra construir durante anos na rua foram ampliados, de uma só vez, por esse megafone.
Clientes famosos começaram a bater à porta — atores brasileiros como Camila Pitanga, Renata Sorrah e Paulo Betti viraram fregueses. Um "camelô perseguido" tinha virado uma marca de doces com força real na internet. Quem consegue agarrar uma oportunidade com firmeza quando ela chega geralmente é quem já tinha o carrinho abastecido na rua.
Etapa 3 — De um único brigadeiro a uma linha de produtos + uma loja física (2021)
Eles não pararam num brigadeiro só. A linha foi do brigadeiro para bolo no pote, barras de chocolate, ovos de Páscoa e, mais tarde, o carro-chefe — um bolo de caramelo com sal.
Em 2021, abriram a primeira loja física, a Casa Afagá, na Rua Uruguai, em Andaraí, e transformaram o espaço num café: matcha latte, brunch, bentô cakes com frases engraçadas. Eles usam o hit nacional brigadeiro como isca para atrair o cliente e depois sobem o ticket médio e a recompra com bolos, caixas de presente e cafés mais caros.
Etapa 4 — Passando a marca do milhão: R$1.25M em 2024, mirando R$2M em 2025
Em todo esse caminho, eles não pegaram nenhuma captação externa nem empréstimo. Um carrinho de três pessoas, reinvestindo o lucro passo a passo, virou um time de 18 pessoas.
Em 2024, o faturamento da Afagá passou de um milhão pela primeira vez — R$1.25 milhão, para ser exato (~$220K). Para 2025 eles projetam R$2 milhões (com mais de R$1M esperado só no primeiro semestre) e planejam abrir a primeira filial em 2026, no Taste Lab, praça de alimentação na Tijuca.
Uma bicicleta que não vendia e uma temporada de rua que as pessoas evitavam atravessando a calçada tinham virado, oito anos depois, uma marca de doces brasileira queridinha das celebridades, faturando milhões de reais por ano.
"Fui expulso de lojas e via conhecidos atravessarem pra outra calçada só pra não esbarrar em mim." — Matheus Duarte (paráfrase de entrevistas públicas)
Fonte: Time Out Rio · Terra · Instagram @afagabr
Reflexão
Insight 1: Um "carrinho de rua" é o teste de mercado mais barato possível — valide primeiro, abra a loja depois
A maioria das pessoas faz na ordem errada: primeiro gasta com aluguel, reforma e estoque, e depois reza para alguém entrar. A Afagá fez o contrário — uma bicicleta adaptada e a cozinha dos pais, colocando o produto direto na mão de clientes de verdade na rua. Se não vendesse, a única perda eram os ingredientes.
Um carrinho de rua não é uma "forma rebaixada à qual você só recorre quando está quebrado"; é um teste de demanda subestimado e de custo quase zero que, antes de você enterrar dinheiro em ativos pesados, te diz de forma brutal e honesta se alguém vai pagar — e se vai voltar. Valide "alguém compra isso?" com o método mais leve primeiro e só então fale em abrir uma loja. Acerte essa ordem e você desvia do erro mais fatal que os empreendedores cometem.
Insight 2: Sobreviver ao fundo do poço da dignidade — "ser expulso, conhecidos te evitando" — já é por si só um fosso de proteção
Matheus foi expulso de lojas e viu conhecidos atravessarem a rua para fugir dele — uma vergonha que afasta 99% das pessoas. Mas foram justamente aqueles anos de rua que afiaram tanto o produto quanto a casca grossa e o instinto de venda.
A dureza do começo é por si só um fosso: as pessoas dispostas a aguentar isso, e a aguentar por muito tempo, são pouquíssimas. Esse é o mesmo fio condutor escondido em tantos casos — "um começo lento é um filtro": os concorrentes não são vencidos pelo seu produto; são desencorajados pelos dias invisíveis, sem recompensa e cheios de caras tortas. Quem dura mais que essa fase já venceu no caminho que ninguém mais quer trilhar.
Insight 3: A oportunidade (a pandemia/o Instagram) não é sorte — é um megafone para quem já tinha o carrinho abastecido
É fácil creditar a decolagem da Afagá à "sorte da pandemia + Instagram". Mas a verdade é: eles já tinham passado três anos ralando produto e construindo público na rua, e o Instagram só amplificou esse acúmulo de uma vez. Sob o mesmo vento favorável da pandemia, quem não tinha produto nem reputação não agarrou nada.
Essa é a virada de chave mais importante sobre "sorte": o megafone está aberto para todo mundo, mas só quem abasteceu o carrinho com antecedência consegue agarrar. Em vez de esperar pelo vento favorável, continue lapidando o produto e acumulando clientes recorrentes e conteúdo nos dias sem tráfego — para que, quando algum impulso de plataforma ou momento viral chegar, você seja quem decola.
Insight 4: Use um "hit nacional" como isca e depois conduza os clientes para itens de ticket mais alto
O brigadeiro é um doce que todo brasileiro ama e entende — uma isca perfeita: barreira de decisão baixa, boca a boca rápido, primeira compra fácil. Mas um brigadeiro sozinho tem ticket baixo e teto baixo.
A esperteza da Afagá: conquistar com o hit nacional e depois conduzir os mesmos clientes para valores mais altos com bolo no pote, caixas de Páscoa, bolo de caramelo com sal e um cardápio de café. É uma combinação de "captação de barreira baixa + monetização de ticket alto". Na hora de escolher os produtos, deixe claro qual é o seu chamariz de tráfego e quais são os seus geradores de lucro.
Insight 5: Sem captação — cresça com fluxo de caixa e mantenha o ritmo e a marca nas suas próprias mãos
De três para 18 pessoas, de carrinho para loja para filial — a Afagá não pegou dinheiro de fora nem empréstimo, reinvestindo o lucro o tempo todo. Devagar, mas cada passo se firmou bem, com a marca e o ritmo de crescimento totalmente nas próprias mãos.
Para uma pessoa comum, sem recursos nem contatos, esse é justamente o caminho mais realista e mais estável: não ficar refém do capital, não viver ansioso com parcelas, deixar o negócio gerar o dinheiro para o próprio próximo passo. O teto talvez seja mais baixo que o de startups com investimento, mas a taxa de sobrevivência, a liberdade e a resistência a risco são muito mais altas.
Ação
Passo 1: Valide com o "carrinho" mais barato primeiro — não abra uma loja de cara
Antes de assinar um contrato de aluguel, reformar ou montar estoque, coloque o produto na frente de clientes de verdade com o método mais leve — um carrinho, uma barraca de feira, pré-vendas, recebendo pedidos pelo Instagram. Confirme duas coisas: alguém vai pagar e vai voltar. Quanto mais barato o teste, mais vezes você pode errar. Grave "validar primeiro, escalar depois" na sua ordem de fundação.
Passo 2: Escolha um produto-isca "fácil de recomprar e expansível"
Encontre um item assinatura que não seja difícil de fazer, tenha barreira de decisão baixa e possa se estender numa série (como o brigadeiro para a Afagá). Use-o para atrair o cliente e depois empilhe linhas de ticket mais alto por cima (bolos, caixas de presente, combos, assinaturas). Não lance uma lista enorme de SKUs no primeiro dia — conquiste um hit forte primeiro e só então monte a linha.
Passo 3: Abasteça o carrinho nos dias sem tráfego e espere o megafone chegar
Não fique sentado esperando o vento favorável. Nos dias em que ninguém está olhando, continue lapidando o produto, acumulando clientes recorrentes e guardando conteúdo. Impulsos de plataforma, momentos virais, repostagens de famosos — esses "megafones" vão chegar uma hora, mas só amplificam o que já existe. Quanto mais sólido o seu estoque, mais limpo você agarra o momento.
Passo 4: Conte a sua história de luta — dê um rosto humano à marca
A trajetória da Afagá, "de camelô perseguido a confeitaria das celebridades", já é o melhor marketing. Uma história de origem real viaja mais longe e conquista mais confiança do que qualquer anúncio caprichado. Conte aos clientes, com honestidade, por que você começou, o que aguentou e até onde chegou — as pessoas compram não só o produto, mas a pessoa por trás dele.
Passo 5: Se dá para crescer com fluxo de caixa, não tenha pressa de captar
Prefira reinvestir o lucro em vez de pegar empréstimo ou captar de cara. Mais devagar, mas cada passo se firma, e o ritmo e a marca ficam nas suas mãos. Do carrinho à filial, reinvista um passo de cada vez — esse caminho pode não ser sexy, mas é a forma mais realista e de maior sobrevivência de uma pessoa comum escalar.
Não serve para você se: você não consegue encarar clientes e a rejeição cara a cara na rua; ou você quer "abrir uma loja de uma vez" e não topa validar a demanda de forma barata primeiro; ou você espera fama da noite para o dia — eles ralaram na rua por três anos antes de chegar o momento que amplificou tudo.